JOSÉ DE SOUZA MARQUES

JOSÉ DE SOUZA MARQUES

José de Souza Marques nasceu no pós-abolição da escravatura, aos 29 dias do mês de março de 1894, no Rio de Janeiro. Negro, neto de escravos e filho de pais humildes: um marceneiro e uma lavadeira. Foi casado Leopoldina Ribeiro de Souza e juntos, tiveram sete filhos.

Viveu e foi criado em Pinheiral, que nesse período ainda integrava o município de Volta Redonda, de 1896 até 1911, ou seja, dos seus dois aos dezessete anos, quando retornou ao Distrito Federal, sem escolaridade e semianalfabeto.

De origem humilde e vivendo em um período de grandes dificuldades, em meio a um racismo ainda muito latente, José de Souza Marques iniciou sua vida de trabalhador desde muito cedo, ainda com seus dezessete anos foi ajudante de pedreiro, carpinteiro e serralheiro, ofícios que herdara do pai.

Contudo, sua luta pessoal, sua obstinação o projetou para um futuro que contrariou todas as possíveis expectativas negativas de sua época. Assim, com esforço e grande mérito, formou-se Bacharel em Ciências e Letras, além de graduar-se também, aos 28 anos de idade, em Teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, na turma de 1922, Instituição mantenedora da atual Faculdade Batista do Rio de Janeiro.

Dentre tantos pontos importantes de sua trajetória, destacamos que, após um período no Paraná, onde durante algum tempo foi pastor, voltou ao Rio de Janeiro e se formou em Direito. Sendo aprovado em concurso público de provas e títulos, tornou-se professor do Distrito Federal, que nessa época, ainda era o Rio de Janeiro.

Destacamos também que, foi secretário e vice-diretor do Colégio Batista do Rio de Janeiro e aos 35 anos, fundou uma Escola Primária, em 1929, a qual deu origem ao Colégio Souza Marques, posteriormente integrado na Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, na região de Cascadura, no Rio de Janeiro mantém uma Faculdade de Medicina, além de outros cursos.

O professor Souza Marques seguindo uma tradição norte-americana, de militância de líderes cristãos na maçonaria, foi um destacado obreiro, membro do Grande Oriente do Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro.

Desde que ingressou na Ordem, ele sempre esteve no exercício de vários cargos importantes e de grande relevância para de grande relevância na nossa Instituição Maçônica.

Mesmo com seus múltiplos afazeres em sua vida profana, sempre honrou seu compromisso com a vida maçônica, fazendo jus aos encargos assumidos com os cargos que exerceu, dentre os quais, podemos destacar sua atuação como Venerável Mestre; membro efetivo do Ilustre Conselho Federal da Ordem; Deputado Federal da Soberana Assembleia Federal Legislativa; Presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maçônica do Grande Oriente do Brasil – GOB; membro efetivo do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito; Benemérito do Rito Brasileiro, dentre outros.

Pelo excelente trabalho realizado à frente do Supremo Tribunal de Justiça Maçônica do GOB, a sala onde hoje funciona o Tribunal de Justiça Maçônica do Grande Oriente do Brasil no Rio de Janeiro recebe seu nome como uma justa homenagem a sua memória.

Vale lembrar que, Souza Marques também foi Membro Efetivo do Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito, encontrando-se em sua sede em exposição, um retrato pintado a óleo do Pastor Souza Marques.

Ressaltamos que, na Academia Maçônica de Artes, Ciências e Letras do Estado do Rio de Janeiro – AMACLERJ, que é vinculado ao Grande Oriente do Brasil no Estado do Rio de Janeiro e composta de 33 Cadeiras, cada uma delas sob um Patronato, José de Souza Marques é o patrono da cadeira de número 24.

Em sua homenagem, em 19 de junho de 1981, foi fundada a Loja Maçônica ARLS José de Souza Marques Nº 2098, no local da antiga Gráfica Souza Marques, pertencente à família de Souza Marques, localizada na rua Nerval de Gouveia, no bairro de Cascadura, tendo, posteriormente, transferido suas atividades para a Rua Olina, em Quintino Bocaíuva, onde funciona até a presente data.

Vale destacar que, Souza Marques foi iniciado na ARLS Brasil Nº 0953, em 14 de abril de 1943, tendo se filiado, posteriormente, na ARLS Duque de Caxias Nº 0441, em 17/08/1945 e, em 12/07/1947, na ARLS Independência II Nº 0862.

José de Souza Marques, após formado em Teologia, foi consagrado Ministro Evangélico e se tornou Pastor Batista, vinculado à Convenção Batista Brasileira, vindo a ser Pastor da Igreja Batista do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, além da Primeira Igreja Batista de Campo Grande no período de 1923 a 1925. Foi também Pastor, por 8 meses na atualmente conhecida Primeira Igreja Batista de Bonsucesso, no período de setembro de 1924 a maio de 1925.

Ressaltamos que, também foi fundador da Igreja Batista Jardim da Prata, em Nova Iguaçu, em 2 dezembro de 1951, com cerca de 20 membros e o apoio da Igreja Batista do Engenho Novo, sendo então seu primeiro obreiro e pastor até 09 Março de 1952.

Construiu vários templos batistas, dentre outros, nos bairros cariocas de Realengo, Osvaldo Cruz e Engenho Novo.

Souza Marques foi, por várias ocasiões, presidente da Convenção dos Batistas Carioca. Assim, em 1935, com 41 anos de idade, foi também presidente da Convenção Batista Brasileira, na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. Posteriormente, foi presidente da Ordem dos Ministros Batistas do Brasil, em 1958, com 64 anos de idade, quando se deu o Primeiro Congresso de Pastores Batistas do Brasil.

Vale ressaltar que, na política, Souza Marques foi fundador e presidente do Partido Republicano Democrático, em 1945. Que posteriormente, no ano de 1949 passaria a denominar-se Partido Republicano Trabalhista.

Foi deputado constituinte à Primeira Legislatura do antigo Estado da Guanabara, além de vereador no Rio de Janeiro. Era deputado estadual quando partiu para o Oriente Eterno.

José de Souza Marques lutou desde seu primeiro mandato pela aprovação de um projeto de lei que assegurasse o financiamento a estudantes carentes em todos os níveis, em particular a alfabetização e o ensino básico e médio.

Político sensível às questões sociais, assim, como vereador do antigo Distrito Federal, deputado constituinte do Estado da Guanabara, em 1960, principal aliado na campanha de Leonel Brizola para deputado federal em 1962 e um dos principais aliados do deputado federal Miro Teixeira a partir de 1969, José de Souza Marques foi um dos principais e mais eficientes construtores das institucionalidades cariocas e fluminenses dos anos 1940 até 1974.

Em sua trajetória política, tinha atuação firme e, sempre agia de maneira gentil, bondosa e conciliadora. Era considerado por seus pares um sábio e um magnífico conselheiro. Essa característica fez com que José de Souza Marques, sem ser contra a construção da estátua do Cristo Redentor na Floresta da Tijuca em área da União Federal, articulasse um pacto de tolerância e respeito ao estado laico e às demais religiões na cidade do Rio de Janeiro.

É importante salientar que, a estátua do Cristo Redentor foi inaugurado em 12 de outubro de 1931. Sua construção foi precedida de uma intensa controvérsia liderada por adeptos da Igreja Batista do Brasil, da Igreja Metodista do Brasil, e da Igreja Presbiteriana do Brasil, apesar das divergências denominacionais. Hoje, ele é considerado um símbolo nacional e patrimônio da humanidade.

Outros grupos também fortaleceram as manifestações, tais como os cidadãos sem religião definida e militares positivistas da ativa e da reserva que eram contrários à Igreja Católica Apostólica Romana, hegemônica e majoritária na época, e que até o início da República Federativa Brasileira em 1889 era a religião oficial do Brasil.

Apesar das controvérsias, o vereador do Distrito Federal José de Souza Marques, pastor da Igreja Batista Brasileira, liderou um acordo entre os diversos grupos de interesse e o Estado Nacional Brasileiro.

Dessa forma, podemos dizer que, José de Souza Marques assegurou que o monumento ao Cristo Redentor fosse utilizado e administrado pela Igreja Católica Apostólica Romana, porém não fosse um santuário católico, mas um símbolo do humanismo cristão e universalista.

Sem dúvida, tal política, contribuiu para que o Cristo do Corcovado fosse um lugar de turismo e não de culto, um monumento e não uma imagem de culto religioso.

A engenharia política que teve José de Souza Marques como artífice perdurou até o início do século XXI, quando por decreto papal e do arcebispo do Rio de Janeiro de 12 de outubro de 2006 o monumento foi transformado em santuário. Em 21 de novembro de 2007 o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) – por intermédio de seu superintendente regional Rogério Rocco, ratifica o decreto papal e do arcebispo do Rio de Janeiro, que foi também referendado pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

O monumento humanista e universalista representado pela majestosa estátua do Cristo Redentor é um monumento à paz, à tolerância e ao humanismo e, tornou-se um santuário da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Lembramos também que, Souza Marques foi redator do jornal O BATISTA FEDERAL, bem como fundador do jornal NOVA ERA, fundador e diretor da Editora Souza Marques, diretor-proprietário da Livraria Evangélica Suburbana.

Em 23 de Outubro de 1962, reuniu-se com outros intelectuais evangélicos, na sala do Conselho da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, na Rua Silva Jardim, na cidade do Rio de Janeiro e fundaram a Academia Evangélica de Letras do Brasil, assumindo o cargo de presidente o pastor presbiteriano Bolivar Ribeiro Pinto Bandeira, e José de Souza Marques, o cargo de vice-presidente de 23 de Outubro de 1962 a 11 de Dezembro de 1964. Em 12 de Dezembro 1964, assumiu a presidência e nela permaneceu até 11 de Dezembro de 1966.

Na Academia Evangélica de Letras do Brasil foi o primeiro ocupante da Cadeira 4 que tem como patrono ele mesmo, José de Souza Marques.

A prefeitura do Rio de Janeiro homenageou Souza Marques, dando o seu nome a uma praça: “praça José de Souza Marques”, localizada no bairro de Cascadura, faz ligação com uma das principais avenidas do bairro: Av. Ernani Cardoso. Onde abriga o terminal rodoviária da região (Terminal de Cascadura), oficialmente: “Terminal Deputado José de Souza Marques”.

Essa avenida é onde se situa a Fundação Técnico-Educacional Souza Marques e complexo Educacional de mesmo nome.

No dia 28 de Março de 2013, O prefeito Eduardo Paes inaugurou a 58ª Clínica da Família do município do Rio de janeiro, com o nome “Clínica da Família Souza Marques”, homenageando a memória de Souza Marques pela atuação sócio educacional naquela região. A unidade foi construída no antigo prédio do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro – IASERJ, no bairro de Madureira.

O governo do Estado do Rio de Janeiro também homenageou-o batizando um Colégio Estadual com o seu nome: “Colégio Estadual Professor José de Souza Marques”, localizado na Estrada do Quitungo, em Brás de Pina, na cidade do Rio de Janeiro.

Homem discreto, Souza Marques nunca fez militância ostensiva da sua condição de integrante da raça negra, ou do fato de ser batista ou maçom, despontando como um construtor social moderado e conciliador, jamais como radical adepto de rupturas.

Vale ressaltar que, tal como a maioria dos cariocas, José de Souza Marques gostava de samba e era frequentador de blocos de carnaval, sendo sua participação mais assídua, no bloco do Catumbi. Contudo, podemos dizer que o Grande Arquiteto do Universo reservava algo em especial para ele.

Certo dia, quando se dirigia para o bloco, no Catumbi, caiu um grande temporal que o deixou ilhado, porém, por sorte, encontrou uma Igreja Batista aberta e realizando um culto, cuja pregação do Pastor o deixou bastante sensibilizado e com o coração muito tocado. Daí para sua conversão foi um passo, até porque, sua mãe, que já era evangélica e com quem tinha comentado essa experiência, deu-lhe grande incentivo para sua tomada de decisão.

Assim foi que, José de Souza Marques deixou de ser mais um folião carioca para se tornar o grande homem, evangélico e maçom que foi, o qual até hoje nos serve de paradigma. Nascido no pós-escravatura, negro, contrariando todas as perspectivas de sua época, Souza Marques tornou-se professor, educador, jornalista, advogado, pastor evangélico, editor, empresário e empreendedor, maçom, político, escri-tor e pensador humanista.

Concluindo, o acaso e a força do querer tomou conta do jovem sonhador José de Souza Marques, que perseverou e lutou contra todas as adversidades, tornando-se mais que vencedor, um verdadeiro exemplo de construtor social, homem e Maçom a ser reverenciado e seguido por todos nós.

AILDO VIRGINIO CAROLINO
Grão-Mestre Adjunto
Presidente do CEO